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Edição 21 - Outubro/2008

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A Novidade da Bossa

A Novidade da Bossa

Abossa nova nasceu como uma reação intuitiva de gente jovem ao processo de estagnação em que se encontrava a música popular nos anos 50, invadida por ritmos estrangeiros, em especial os boleros, as rumbas e as canções americanas comerciais, além dos ritmos para consumo cíclico da juventude, como o chá-chá-chá, o rock, o twist e o merengue. Havia ainda uma enxurrada de versões e de sambas canções brasileiros, de baixo nível, onde falta de talento e vulgaridade eram elementos constantes.

A bossa nova, portanto, surgiria não apenas como uma reação a esse estado de coisas. Seria também um elemento definidor da febre pelas novidades que se abriam para o desenvolvimento do país. O governo JK prometia cinqüenta anos em cinco e começava a construir Brasília, a abrir estradas de rodagem e a implantar parques industriais pesados. O Brasil vivia um clima de euforia nos três últimos anos da década dos 50, do qual sairiam também movimentos renovadores no campo de vários outros segmentos artísticos: no cinema, o começo do chamado cinema novo. Na poesia, os poetas concretistas e na música erudita, os decafonistas, enquanto nas artes plásticas, a nova figuração. Em música popular, esse processo geral de renovação encontraria o caminho da bossa nova.

Historicamente, pode-se determinar o aparecimento formal da bossa nova em 1958, quando se juntaram personagens em três setores distintos da criação musical: João Gilberto - o ritmo e a atmosfera cool de seu violão, Antonio Carlos Jobim – a melodia e harmonia do seu piano singular, e Vinícius de Moraes – a letra de sua provocadora paixão. O mais importante deles (para a bossa nova, que fique claro), João Gilberto, era um violonista baiano que trazia dentro do violão toda a malícia, a manemolência e até a languidez descansada de sua terra. Foi ele o criador da batida da bossa nova, maneira diferente e pouco usual de tocar violão, que conferia ao ritmo um sabor de samba mais lento, mais adocicado. Ou mais “aguado” – como ironizavam alguns dos algozes do novo movimento. O primeiro encontro dos três mosqueteiros da bossa nova (abril, 1958) se daria no elepê “Canção do amor demais”, em que a cantora Elizeth Cardoso cantava doze músicas da nova dupla, Vinícius e Tom. Em dois desses números aparecia o violão de João Gilberto, o principal dos quais era o samba intitulado “Chega de saudade” (o outro era “Outra vez”).

A partir da bossa nova, Vinícius fez música com todo o mundo. A começar por Tom, ele projetaria Carlos Lyra (60), Baden Powell (62), Edu Lobo (63), Francis Hime (64), Toquinho (68), e faria música com quase todos os compositores jovens ou não jovens do Brasil, como Ary Barroso, Pixinguinha e até Bach, para cuja peça “Jesus Alegria dos Homens” colocou letra, mudou-lhe atrevidamente o ritmo para marcha-rancho e a rebatizou de “Rancho das flores”.

Já Antônio Carlos Jobim abandonou a Faculdade de Arquitetura ao começo dos 50 para dedicar-se à música. A primeira a despertar discreta curiosidade do público foi “Teresa da Praia”, em parceria com Billy Blanco, gravada (julho de 54) por Dick Farney e Lúcio Alves, cantores do samba-canção, mas que interpretavam suas criações com um sentido de improviso e descontração que neles já se registravam – como em Johnny Alf – alguns indícios da inquietação musical que a bossa nova absorveria.

Ainda no mesmo período das parcerias iniciais com Billy Blanco, Dolores Duran, Marino Pinto, e logo depois Vinícius – a quem ele foi apresentado por Lúcio Rangel no bar Vilariño, para musicar a peça “Orfeu da Conceição” – Jobim também fazia música com um amigo de juventude da praia de Ipanema. Era o pianista Newton Mendonça, com quem comporia dois clássicos da bossa nova depois de “Chega de Saudade”. E apenas para defender o novo movimento musical. O fato concreto: uma tempestade de críticas começou a aparecer contra os estruturadores da bossa nova, especialmente João Gilberto, a quem os críticos tradicionais acusavam de desafinado, de anti-musical e de outros insultos. Essas duas músicas de Tom e Mendonça foram respostas bemhumoradas à acidez dos críticos: “Desafinado” e “Samba de uma nota só”. No primeiro (1959) eles defendiam o supostamente desafinado João e a bossa nova: “Se você insiste em classificar / Meu comportamento de anti-musical / Eu mesmo mentindo devo argumentar / Que isso é bossa nova, isto é muito natural”... No segundo, “Samba de uma nota só” (1960), Tom e Mendonça mais uma vez respondiam aos detratores da bossa nova, reafirmando com ironia: “Eis aqui este sambinha / Feito numa nota só / Outras notas vão entrar / Mas a base é uma só”. E concluíam na segunda parte da música: “Tanta gente por aí que fala tanto / E não diz nada, ou quase nada”.

Apenas para resumir: a bossa nova teria sido historicamente criada por Jobim, Vinícius e muito especialmente por João Gilberto, com a batida de um violão criativo e provocante. O que não quer dizer que o novo movimento ficasse restrito a eles. Muito pelo contrário: sambistas, cantores e, especialmente, músicos juntaram-se para institucionalizá- lo, dando-lhe a segurança numérica que qualquer movimento musical carece para declarar-se instalado e propagar-se.

Essas pessoas eram, no mais das vezes, universitários que se preocupavam muito com o progresso sócio-econômico do país e com seus crônicos problemas sóciopolíticos. Os músicos – fascinados pela nova estrutura harmônica que se desencadeara com Tom Jobim – eram ouvintes do jazz norte-americano e se juntavam em apartamentos de Copacabana e de Ipanema para fazer “jam-sessions”, onde ouviam nos picapes de alta fidelidade as bolachas de músicos e vocalistas norte-americanos. Daí aos primeiros “shows” grupais foi um passo. Os centros universitários ganharam as preferências dos bossa-novistas, o principal dos quais foi o anfiteatro da Faculdade de Arquitetura na Urca. Começaram então a mostrar suas caras gente nova como o violonista Roberto Menescal e o jornalista Ronaldo Boscoli, autores de obra pontuada de êxito naqueles anos iniciais dos 60 (“O barquinho”, “Rio”, “Vagamente”), ou a doce e encantadora Nara Leão, a musa do movimento que cantava num banquinho, exibindo as lindas pernas e uma franjinha. Ambos, pernocas e franjinha, causariam “frisson”. E tanto que Nara virou, naturalmente, a musa da bossa.

Logo se destacaria entre os bossanovistas, pelo excepcional talento de melodista e compositor, o violonista e cantor Carlos Lyra. A verdade – e essa terá sido uma digna contribuição cultural de Lyra – é que ele aceitou em parte a harmonia jazzistica, apenas como elemento enriquecedor, mas não admitiu a transformação do nosso ritmo em jazz. Sua música “Influência do jazz” (1962) não poupa crítica ao estado em que chegava o samba jazzificado dos primeiros anos da década dos 60, quando proclama: “Pobre samba meu / Foi-se modernizando e se perdeu / É um samba torto / Prá cima e prá trás / Influência do jazz”.

Mesmo com a influência do jazz, a bossa nova se propagaria a partir de 1962 pelos EUA e pelo mundo. O concerto do Carnegie Hall (1962) seria considerado, em termos históricos, o início formal do rastilho de pólvora da bossa nova por todos os continentes.

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