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Edição 21 - Outubro/2008

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João Gilberto, 50 Anos de Bossa Nova

João Gilberto

Ele é considerado um excêntrico. Não gosta de dar entrevistas, faz poucos shows e não gosta de aparecer. Ele é considerado também, um dos nomes mais importantes da música brasileira, dono de uma voz macia e afinada e um grande violonista. Ele é considerado ainda o criador do ritmo bossa nova.

João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, mais conhecido como João Gilberto, nasceu na Bahia, na cidade sertaneja de Juazeiro. João ganhou seu primeiro violão aos 14 anos de idade e, desde então, jamais o largou. O violão é sua vida, sua obsessão. Na década de 1940, adorava escutar de Duke Ellington e Tommy Dorsey até Dorival Caymmi e Dalva de Oliveira. Aos 18 anos decide ser cantor e se muda para Salvador. Em 1950, vai para o Rio de Janeiro, onde começa a ter sucesso cantando no grupo Garotos da Lua. Entretanto, não fica muito tempo na banda por indisciplina. Mas fica obcecado pela idéia de criar uma nova forma de expressar-se com o violão. Seu esforço finalmente foi recompensado: ele conhece Tom Jobim – pianista acostumado à música clássica e também compositor, influenciado pela música norte-americana da época (principalmente o jazz) – e um grupo de estudantes universitários de classe média, também músicos, e lançam o movimento que ficou conhecido por bossa nova.

A bossa nova é uma mistura do ritmo sincopado da percussão do samba numa forma simplificada e a ao mesmo tempo sofisticada, que pode ser tocada num violão sem acompanhamento adicional, cuja técnica foi inventada por João Gilberto. Quanto à técnica vocal, parte integral do conceito de bossa nova, é uma técnica de cantar em tom de voz uniforme, com voz emitida sem “vibrato”, e com um fraseado disposto de forma única e não-convencional, de forma a eliminar quase todo o ruído da respiração e outras imperfeições.

Apesar da fama com a recém-criada bossa nova, sua primeira gravação lançada comercialmente foi uma participação como violonista no disco de Elizeth Cardoso de 1958, intitulado “Canção do Amor Demais”, composto por músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Pouco depois desta gravação, João Gilberto gravou seu primeiro LP “Chega de Saudade”. A faixa-título, composta por Tom e que também aparecia no álbum de Elizeth Cardoso, foi um grande sucesso no Brasil, lançando a carreira de João Gilberto e, por conseqüência, todo o movimento da bossa nova. Além de algumas composições de Tom Jobim, o álbum apresentava sambas mais antigos e músicas populares na década de 1930, todas tocadas em ritmo de bossa nova. Este álbum foi seguido de outros dois, em 1960 e 1961, nos quais ele apresentou músicas de uma nova geração de cantores e compositores, como Carlos Lyra e Roberto Menescal.

Por volta de 1962, a bossa nova já era bem conhecida e tinha inclusive, sido adotada por músicos de jazz norte-americanos, tais como Herbie Mann, Charlie Byrd e Stan Getz. A convite de Stan Getz, João Gilberto e Tom Jobim colaboraram naquele que se tornou um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos, “Getz/Gilberto”. Com este álbum, Astrud Gilberto, esposa de João Gilberto na época, se tornou uma estrela internacional, e a composição de Jobim Garota de Ipanema, em sua versão em inglês, The Girl from Ipanema se tornou um sucesso mundial e modelo pop para todas as idades.

João Gilberto e Tom Jobim

João Gilberto continuou a fazer espetáculos na década de 1960, porém não lançou outros trabalhos até 1968, quando gravou Ela é Carioca, durante o tempo em que residiu no México. O disco “João Gilberto”, algumas vezes chamado de “o álbum branco” da bossa nova (em alusão ao álbum branco dos Beatles) foi lançado em 1973, e apresenta uma sensibilidade musical quase mística, sua primeira mudança de estilo perceptível após uma década. Em 1976, João lançou o disco “The Best of Two Worlds”, com a participação de Stan Getz e da cantora Miúcha, que se tornara a sua segunda esposa em abril de 1965. O disco “Amoroso”, saiu em 1977, com arranjos de Claus Ogerman, que buscou uma sonoridade similar a de Tom Jobim. Nos anos 80, João Gilberto colaborou com Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia (criadores, em fins da década de 1960, do movimento conhecido como Tropicália). Em 1991, lançou o disco “João”, que não tinha nenhuma composição de Tom Jobim. Ao invés disso, teve trabalhos de Caetano, Cole Porter e de compositores de língua espanhola. “João Voz e Violão”, que foi lançado em 2000, assinalou um retorno aos clássicos da bossa nova, como Chega de Saudade e Desafinado. O CD, uma homenagem à música de sua juventude, foi produzido por Caetano Veloso. Além das gravações em estúdio, João Gilberto tem outras gravações ao vivo, também com muito sucesso, como “Live in Montreux”, “Prado Pereira de Oliveira” ou “Live at Umbria Jazz”.

Vale lembrar que a bossa nova maravilhou o mundo quando João Gilberto, Bola Sete, Agostinho dos Santos, Carmem Costa, José Paulo, Carlos Lyra, Luis Bonfá, Antonio Carlos Jobim, Sérgio Mendes, Miltinho Bana e Roberto Menescal se apresentaram em 1962, no Carnegie Hall, em Nova Iorque, a mais célebre casa de concertos do mundo, produzindo um grandioso espetáculo que encantou a todos. João Gilberto era admirado por Lalo Schifrin, compositor argentino e Stan Getz de quem era grande amigo, entre outros. Era o grande astro da noite e a sua apresentação era aguardada com muita ansiedade. Quando terminou o espetáculo, todos estavam extasiados. Uma primorosa e belissíma interpretação. Sucesso total. No final do show, dezenas de jornalistas, radialistas e repórtes televisivos, aos empurrões, se aproximavam de João para obter dele uma palavra que traduzisse a emoção pelo excepcional resultado do espetáculo.

O grande músico João Gilberto, apesar da reputação de excêntrico, recluso e perfeccionista, continua a fazer raras apresentações, sempre com enorme sucesso no Brasil e no exterior. Mas para alegria da sua legião de fãs, João fará duas apresentações este ano, uma no Rio e outra em São Paulo. E onde João se apresenta, quem gosta da boa música vai atrás.

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